Q
DO YOU SPEaK ENGLISH. HABLA ENGLAISSSS??
Anonymous
A

Yup. Why?


Familiar.

A familiaridade da situação incomodava. Dessa vez era diferente, de uma forma talvez até mais assustadora, mesmo que familiar.

Um “deixa disso” desanimador junto a um sentimento de incerteza apunhalando nos instantes mais inoportunos e enfraquecendo as estruturas que, com tanto esmero e desgaste, se estabeleceram. Talvez fosse coisa de sua cabeça, mas tudo parecia estar ruindo por dentro e talvez as coisas já tivessem desmoronado sem perceber.

Se deixando levar pelo que era mais fácil, percebeu que voltara a se anular vigorosamente. Negava certas coisas a si mesmo e se apegava aos momentos em que ainda se sentia confortável como abrigo.

Sentia estar incompleto e tinha medo das consequências de qualquer atitude que tomasse, pois sabia que seriam muitas e sabia também que sofreria por elas, talvez até mais do que imaginasse.

Sentia-se perdido. E a familiaridade da situação incomodava. 


Crossover

É uma manhã nublada e o ônibus roda pela cidade parando no ponto em frente à lojinha de presentes de 1,99. Sentado no último banco, alterna o olhar entre o livro de fantasia medieval e as pessoas que entravam no ônibus rumo a seus compromissos, tarefas e afazeres da vida em geral.

Os guerreiros munidos de espadas e escudos se alinhavam na frente de batalha, logo adiante dos cavaleiros com suas armaduras que se destacavam em vermelho e dourado, na vastidão verde dos campos de vegetação baixa. O reino de Melcar tremia com o passo acelerado do exército bárbaro que se aproximava rapidamente da formação cerrada dos Melcarianos.

Uma velhinha carregando várias sacolas de compras passa desajeitada pela catraca e se acomoda entre os passageiros que se seguram como podem no ônibus cheio. Três adolescentes sobem no ônibus numa conversa animada que quebra o murmúrio habitual, falam num ritmo confuso sobre um filme que viram na semana passada e combinam de sair no fim de semana enquanto riem de um bêbado dormindo de pé encostado na janela.

Os bárbaros se aproximam aos urros do exército melcariano, empunhando machados grosseiros e longas lanças adornadas com tufos de pelo de lobo. O choque entre os exércitos é ensurdecedor e estremece ainda mais o chão. A linha de frente melcariana é quebrada e os cavaleiros avançam brandindo suas espadas e gritando insultos enquanto arrancam cabeças e arremessam escudos das mãos dos bárbaros. As lanças perfuram os cavalos, lançando cavaleiros melcarianos ao chão. Uma freada brusca do ônibus derruba o bêbado, que cai pesadamente no chão, sem acordar. A velhinha se desequilibra e vai em direção à frente do ônibus, dando passos desajeitados e se inclinando cada vez mais.

Um destacamento de melcarianos avança em direção aos bárbaros como um bloco sólido de escudos e espadas e varre o caminho até os cavaleiros caídos, que desaparecem no meio da formação.

Um rapaz segura a velhinha, salvando-a da queda. Uma das sacolas não tem o mesmo destino e voa em direção à frente do ônibus. Laranjas rolam por todo lugar enquanto os melcarianos avançam pelo campo de batalha. O cheiro acre de sangue e suor toma conta. Mais cavaleiros partem em direção aos bárbaros, que lutam para manter a formação. A velhinha se recupera, enquanto os adolescentes riem histéricamente. Cabeças são cortadas pelas espadas melcarianas. Os gritos ecoam pelo campo e a vegetação baixa já não é mais verde.

A batalha segue com a vantagem melcariana aumentando cada vez mais enquanto os bárbaros são massacrados a cada golpe desferido. Os bárbaros remanescentes começam a bater em retirada. O ônibus se aproxima do terminal e as pessoas se levantam de seus lugares, indo em direção à porta. O campo de batalha fica novamente em silêncio após a retirada. Os melcarianos voltam para o acampamento para descansar e cuidar dos feridos. O ônibus para no terminal e todos descem, seguindo seu rumo.

Mais um dia comum que se vai.


Tempos Modernos (2007)

Mauro não é aquele cara que você encontraria na rua, andando de chinelo, bermuda e camiseta regata num domingo à tarde, enquanto toma um sorvete. De fato, ele não é um cara que você encontraria na rua, pois o país tá muito violento, sabe? Vê só, esses dias, uma tia disse que o vizinho foi assaltado na entrada de casa e ficou amarrado por duas horas! Outro foi abordado por três homens mascarados e ao tentar reagir, levou três tiros e ficou em coma por duas semanas.

As notícias do gênero se renovavam, e apesar de nunca conhecer ninguém que tivesse passado por tal situação, foi se fechando cada vez mais em casa. Seu padrão de vida não é dos piores, trabalhou muito pra chegar onde está e conseguiu uma casa grande e bonita, mas nunca teve tempo de constituir uma família, pois estava muito ocupado trabalhando.

Assim que sua vida estabilizou e tinha condições de trabalhar menos e ainda assim se manter, decidiu entrar no fantástico mundo da internet, era perfeito, já que não era necessário sair na rua para se comunicar com o mundo todo. Criou orkut, msn, fotolog e myspace, até que começou a receber e-mails com notícias sobre golpes pela internet: Um amigo encaminhando um e-mail que dizia “Urgente! nova fraude!” e falava sobre um golpe onde bandidos roubavam e cometiam vários crimes com informações pessoais de qualquer um que pudessem encontrar na rede. Chegaram muitos e-mails do gênero naquela semana, muitos afirmavam que aconteceu com o primo, ou o vizinho, ou um amigo e que estavam presos até hoje. Mauro ficou preocupado, pois não queria perder sua liberdade e então deletou seu Orkut, msn, fotolog e tudo o mais que pudesse ter seu nome. De tão preocupado, nunca mais ligou o computador, com medo de que alguém pudesse invadí-lo e roubar seus dados.

A essa altura, já não saía mais de casa, pois apesar de ter um carro blindado e um sistema de segurança de última geração, tinha medo que tivesse o carro sabotado, já que todo sistema tem alguma brecha. Mauro decidiu então viajar e começou a procurar alguma companhia aérea que pudesse levá-lo para bem longe, onde pudesse esfriar a cabeça e esquecer os problemas do mundo. Lembrou-se então dos desastres aéreos que ouviu falar e dos perigos de seqüestros de avião. Desde o 11 de setembro, voar de avião nunca mais foi a mesma coisa, certo? Mauro então decidiu dar uma volta para espairecer, contratou de última hora 4 seguranças dos mais recomendados para dar uma volta no parque mais próximo.

Chegou ao parque vestido de uma maneira que há muito não vestia: Tênis para correr, bermuda, camiseta e boné. Fez um breve aquecimento e começou a correr. Nos primeiros minutos da corrida, se sentiu livre como há anos não sentia e parecia que estava mais vivo que nunca, tinha liberdade, tinha saúde. A 45 metros de distância dali, havia um buraco no chão, insignificante, diante das dimensões do parque. Mauro corria tranqüilamente - acompanhado de seus seguranças à paisana, que se comunicavam discretamente pelo rádio atentos a qualquer perigo - em direção ao inofensivo e quase imperceptível buraco, cujo seu pé se encaixou perfeitamente, prendendo seu pé e lançando Mauro a uma considerável distância, seguindo um trajeto direto à uma superfície pontiaguda de uma pedra, no canto da estrada. Mauro morreu de traumatismo craniano. A pedra passa bem.


Edgar, o digitador (2007)

Cocô.
Foi como começou o dia de Edgar, pisando no cocô de cachorro que se encontrava na calçada em frente ao portão de sua casa. Um garoto, franzino e alto, de óculos e uma mochila surrada nas costas, fechava apressado o portão de sua casa enquanto praguejava por ter sujado seus pés no cocô de cachorro e culpava o relógio por não ter despertado. Estava atrasado para o trabalho, levantou correndo, tomou uma rápida ducha e não comeu nada antes de sair de casa. Estava com fome, com sede e com sono, pois ficou até tarde lendo textos necessários para algumas aulas da faculdade.
Corria quase sempre até o trabalho e chegava em cima da hora, sempre a tempo de encontrar os outros funcionários do prédio na entrada. Entrava e subia as escadas para chegar até a pequena sala sem janelas onde passaria cerca de oito horas todo dia. Era digitador de um pequeno escritório de contabilidade e mal sentava-se em sua minúscula mesa quando uma pilha enorme de documentos desabava pesadamente aos seus pés. Seu chefe já mal-humorado, resmungava que precisaria logo dos documentos no sistema, já que boa parte dos documentos, ainda era persistentemente digitado em máquina de escrever, devido a falta de capacidade de seu chefe usar o computador.
"Nada substitui a máquina de escrever" dizia Seu Edson, o grisalho e resmungão contador que chamara Edgar para trabalhar em seu escritório em troca de um salário que pagaria pouco menos da metade de sua faculdade.
Edgar não era satisfeito com seu trabalho, “Melhor que nada” dizia, mas sua insatisfação aumentava a cada dia, visto que muitas vezes era obrigado a levar trabalho pra casa ou mesmo ficar até mais tarde para que terminasse o trabalho e ter o outro dia mais tranqüilo. Doce ilusão, Seu Edson tinha a capacidade incrível de fazer surgir trabalho quando Edgar se adiantava, não necessariamente como digitador, mas para corrigir, fazer entregas ou mesmo fazer o cafézinho para os clientes.
Enfim, naquele dia Edgar estava realmente atrasado e tudo estava dando errado, mais errado que o normal, levava 15 minutos para chegar ao trabalho correndo, porém faltavam 12 minutos para começar seu horário e Edgar ainda não havia fechado o portão, nem trancado e precisava limpar seus tênis. Procurou a chave em sua mochila e não encontrava, 11 minutos. Olhou em seus bolsos, finalmente, encontrou a chave, trancou o portão e saiu em disparada ao trabalho.
10 minutos, chegou à rua que quase sempre atravessa direto, pois pegava pouco movimento, por sorte ou coincidência de horário, mas não hoje, estava atrasado e a rua estava mais movimentada que nunca. 8 minutos, uma brecha no trânsito e Edgar sai correndo para chegar ao outro lado, onde um ciclista quase o atropela, para a bicicleta e começa a xingar Edgar. Normalmente teria pedido desculpas ou mesmo ignorado, mas não se sabe se foi o acúmulo de fatos desagradáveis durante o dia ou durante os últimos meses. Edgar lançou sua pesada mochila, forrada de papéis, em direção ao ciclista enfurecido, que caiu no chão com um baque. Ainda atordoado, o ciclista se levantou, subiu em sua bicicleta e correu assustado, diante de tão surpreendente ato.
5 minutos, Edgar continou a correr, pisou em poças d’água e molhou suas calças, tênis e meias, mas não podia se importar com isso, estava muito atrasado. 1 minuto, arfando, suando e cansado, sua corrida ainda não havia terminado, estava pensando em uma desculpa para dar ao chefe por chegar 2 minutos atrasado. Não foram 2 minutos de atraso, mas 4, coisa que nunca havia acontecido. Seu Edson estava vermelho, esperando na porta do escritório e ao ver seu funcionário, começou a gritar e chamar Edgar de imprestável, dizendo que não servia para nada a não ser fazer um café fraco e ruim.
As palavras de Edson pareciam não sair, pois Edgar não escutava mais nada, apenas seus pensamentos, que corriam a mil por hora; todos aqueles pensamentos que ficaram reprimdos, todas aquelas coisas que queria falar mas não tinha coragem, tudo estava tão claro agora.
Edgar não se lembra do que aconteceu ao certo, apenas lembra de ter começado a falar algo e de ver a expressão de Edson mudar de indignação para intimidação e as únicas palavras que lembra são três, a última coisa que diria a Edson para nunca mais vê-lo:
"Eu me demito."
E saiu feliz em direção a sua casa, onde dormiria até a hora do almoço e relaxaria até que chegasse a hora de sua aula.


Nunca mais. (2007)

Ela acorda e olha para o lado. Mais uma “daquelas noites” em que ela exagerou na dose e acabou levando uma pessoa qualquer pra cama. Sua cabeça ainda doía e seu estômago lhe dava a sensação de estar numa montanha russa.
Joanne não quis saber quem era, nem se era homem ou mulher, tinha medo que fosse mais um gordo seboso ou uma velha ninfomaníaca que pudesse atormentá-la querendo mais que um caso de uma noite só. Se levantou e foi em direção ao banheiro tomar um banho frio e tentar lembrar de alguma coisa. 20 minutos depois de ficar sentada no chão debaixo do chuveiro, vestiu uma calça jeans e camiseta e foi fumar um cigarro na janela do quarto ainda bagunçado. Ouviu uma porta se fechar e olhou em volta do quarto. Cama vazia, bolsa jogada no chão com seus pertences espalhados, inclusive uma carteira aberta e vazia. Sua carteira.

-Filho da puta!

Joanne desceu os 5 andares correndo de uma maneira que a lembrou de “Corra, Lola, Corra.”
-Isso não é hora pra lembrar de uma coisa dessas. Vai atrás do filho da mãe! Ou seria ela?- Pensou.
Ao chegar no lobby do prédio, viu um vulto correndo e dando uma última olhada em sua direção. Culpado encontrado. Um rapaz aparentando uns vinte e poucos anos, estatura mediana e cabelos curtos crespos saía em disparada pelas ruas enquanto uma garota de cabelos castanhos o alcançava rapidamente.

Joanne não era feia, mas não era das mais bonitas. Foi esportista por um tempo até decidir jogar tudo pro alto, mas o preparo físico e sua disposição (e o belo corpo) ainda continuavam, o que era uma vantagem e um problema ao mesmo tempo, já que desde que decidiu aproveitar a vida e morar sozinha, começou a sair e beber descontroladamente, o que fazia com que tivesse muitos parceiros sexuais, de ambos os sexos e dos mais variados tipos, no bom e no mal sentido.

Com um chute nas costas o rapaz vai ao chão, mal se levanta e é atingido por um soco e levantado pelo colarinho, ficando totalmente sem reação. -Desgraçado! Entra na minha casa, dorme na minha cama e ainda faz isso! Tá pensando que é quem, moleque? Acha que só porque sou mulher vai sair assim na moral?
Mais três socos e o rapaz cai no chão, um pontapé no estômago e Joanne pega seu dinheiro do bolso do rapaz e segue de volta pra sua casa. Chegando lá, acende um cigarro, liga o aparelho de som, vai até a janela e enquanto cantarola Janis Joplin pensa sobre tudo que a levou a este estado.

Havia uns 5 anos, fora desiludida em todos os sentidos, tinha tentado suicídio depois de ter sido humilhada quando seu até então namorado caçoou e traiu-a com uma de suas amigas. Soube depois que a traição já durava pouco mais de um mês e todos os amigos de confiança de Joanne sabiam, mas preferiam não falar pois eram cúmplices do caso. Dois dias antes, seus pais haviam brigado e seu irmão mais velho fora agredido por seu pai, quando tentava defender sua mãe de um tapa. Ao final da discussão, seu pai saiu de carro de cabeça quente e bateu seu carro contra um caminhão. Sua mãe começou a se drogar e seu irmão era o único com quem podia contar agora.

1 ano depois, sua vida havia entrado nos eixos, com sua mãe numa clínica de reabilitação, seu irmão fazendo faculdade e cuidando da mãe, chegara a vez de Joanne passar a ser universitária. Estudou e passou em jornalismo numa universidade federal. Estava tão bitolada nesses últimos tempos que não tinha mais tempo para si, nem mesmo para dormir. Um dia num acesso de loucura disse: -Nunca mais - e se tornou na Joanne que não se importava com nada.

Hoje, pensava novamente em tudo que passou e decidiu mudar novamente, deixar de ser tão largada e voltar a se valorizar. Mais uma vez, disse: -Nunca mais.
Terminou seu cigarro e foi tomar café da manhã.


Pelo próprio bem.

E descobriu que foi o orgulho que lhe fizera mal todo esse tempo. Acima de tudo e de todos, o orgulho. Não ceder às injustiças que lhe cercavam, que lhe estapeavam o rosto. Fora cegado, ou talvez cegara a si próprio, não sabia definir.

Mudara por si, mas não somente por si.
Admitira o descontrole  e tudo que estava além de sua alçada. Aceitou enfim, o fato de  que sua relutância não o levaria a lugar nenhum, a não ser o único onde não queria estar.

Não se sentia corajoso, nem feliz por descobrir. Não era forte, tampouco bravo. Sentia-se patético e fraco. Estava desnudo, desarmado, entregue e desprotegido, sem a máscara que ostentava quase como sua filosofia de vida.

E renunciou enfim ao orgulho, pois era o melhor a fazer.
E o fez, enfim. E foi pelo próprio bem.


Prelúdio

E lá estava ele, revisitando sensações familiares e as mesmas inquietações de outrora. Como um prelúdio da tempestade que estava por vir, suas entranhas se retorciam. Já se sentira diversas vezes da mesma forma e ainda que negasse, lhe parecia óbvio o que estava por vir. Apesar de tudo ainda havia esperança que, dessa vez, fosse diferente.

A calmaria nunca lhe veio depois da tempestade, sempre se adiantara em quase todas as vezes, lhe deixando desnorteado a cada vez que os eventos se desencadeavam como um estouro de uma manada de animais desesperados. Vinha arrancando qualquer resquício de sua normalidade, lhe tornando amargo e apático frente às boas notícias, só restava indiferença e amargura introspectiva, com alguns momentos de auto-piedade declarada. Sabia de suas fraquezas e as admitia para si mesmo, mesmo que a contra gosto.

As sensações lhe inquietavam, crescentes com o passar dos dias, tornando-os mais insuportáveis gradativamente. Não sabia quando iria acabar, mas sabia que por bem ou por mal a hora chegaria e não haveria escapatória. Teria de lidar com cada uma das sensações e superá-las como sempre havia feito, independente do resultado.

Mais uma vez repousava a cabeça em seu travesseiro em busca de conforto, com a certeza que na manhã seguinte as sensações estariam silenciadas. Lhe bastava por ora, mas esperava que tudo se resolvesse de uma vez por todas.

E adormeceu mais uma vez, ignorando o que lhe incomodava até que descobrisse como lidar.


Diferente.

Pedro sempre quis ser um cara diferente. Não diferente a ponto de não ser mais ele próprio, mas ainda assim ser diferente. Sempre quis ter mais atitude, mais iniciativa, mais autonomia pra fazer o que bem entendesse, na hora que lhe desse vontade.

Ele nunca conseguiu ser quem queria. Não por inteiro.

Já tentou ser punk, de coturno, camiseta de banda e moicano, mas era tão tímido em suas atitudes que sua segurança quase nula não permitiu seguir em frente com o estilo. Seu próprio cabelo rejeitava manter-se de pé diante da timidez de estar frente à massa que se acotovelava no centro do galpão cheirando a cigarro.

Pedro conseguiu se tornar um pouco diferente aos 17, depois de uma caminhada que terminou em uma ida ao hospital com um pulso trincado. Nos dias de recuperação, Pedro percebeu que a partir dali era diferente. Diferente em uma pequena parte de si, mas era uma diferença ímpar. Isso viria a causar problemas sérios esporadicamente.

Sua mão esquerda agora tinha vida própria e era quase sempre incontrolável. Nas piores situações, a mão se agitava contra a vontade de Pedro, tateando o ar em busca de algo que acalmasse a sensação que lhe queimava os ossos. Pedras eram atiradas, objetos alheios revirados e destruídos, depredação pública, alguns ferimentos e de vez em quando, uns ossos quebrados. Muitas vezes, dele próprio.

Era sempre igual, Pedro quieto em seu canto, tímido como só ele quando sua mão começava a puxá-lo, como uma pessoa invisível e assustadoramente destrutiva. Acabou arranjando muitas inimizades graças ao estrago que fazia, mas a alguns, a diversão proporcionada pelo caos agradava.

Apesar do transtorno causado, ele gostava do resultado. Pedro agora tinha amigos que se divertiam vendo o estrago que sua mão fazia e o incentivavam a parar de se preocupar e lutar contra. Diziam que deixasse a mão fazer o que tinha de fazer e se divertisse com os acontecimentos.

Então sem perceber o que acontecia, foi se tornando diferente por inteiro. Foi aprendendo a deixar a timidez de lado e soube controlar as ações caóticas da mão. Ainda as fazia, mas agora por vontade própria. Não era mais destrutivo, mas era extrovertido e espontâneo.

Pedro era um cara assim, meio diferente.


O problema do “gostar”

Há um problema no “gostar”. É amplo e pode variar entre um sentimento de afinidade ou pura obsessão. É no discernimento que mora o problema, a linha tênue entre o agradável e o inconveniente.

O problema não é o querer bem, e sim querer para si. Abstrair-se de todos os poréns e silenciar todas as vozes que habitam, tornando em uníssono egoísmo. Puro capricho do ser, obsessão irracional. O incontrolável impulso da aproximação inoportuna, de se fazer presente mesmo que já o seja, a necessidade de fazer  parte de um momento que não lhe pertence.

A irremediável obsessão só o deixa de ser, se controlados os anseios e racionalizados de pontos de vista que não de si próprio. Abstraídos totalmente de si e – novamente – de todos os poréns, silenciando enfim as vozes que habitam o ser e levam consigo toda a obsessão presente no “gostar” e o querer para si só.

Resta apenas o bem querer.